
Assassin’s Creed: uma saga envolvida em paixões e polêmicas
Nossa reportagem buscou não apenas analisar o game, mas também avaliar como a sociedade encara os jogos que envolvem violência
Matéria publicada originalmente em 29 de novembro de 2016 no blog Verbatômico

Foto: Assassin's Creed /Divulgação
Uma viagem no tempo
Uma máquina com um propósito ousado: acessar memórias ancestrais a partir do DNA do usuário e transportá-lo virtualmente para a pele de seus antepassados. Essa é a premissa de uma das mais elogiadas séries de videogame da atualidade. A boa avaliação dos títulos da saga Assassin’s Creed é quase uma unanimidade entre jogadores e especialistas do ramo dos games no mundo inteiro. Em setembro de 2016, a franquia bateu a marca de mais de 100 milhões de cópias vendidas, portanto, a mais bem-sucedida de sua empresa desenvolvedora, a Ubisoft. O sucesso é tamanho que, dos consoles e PCs, Assassin’s Creed já chegou aos livros e aos quadrinhos. Nos cinemas, o filme baseado na série está previsto para chegar em dezembro deste ano nos Estados Unidos e em janeiro de 2017 no Brasil.

Altaïr é o primeiro protagonista da série
Lançado em 2007 para Playstation 3, Xbox 360 e PC, o título de estreia de Assassin’s Creed apresenta o barman Desmond Miles, descendente de um membro da Ordem dos Assassinos (seita do islã xiita que existiu de fato e deu origem ao termo “assassino”). Raptado pela poderosa corporação Abstergo, Desmond é persuadido a servir como cobaia de uma máquina revolucionária, a Animus, que pode enviá-lo virtualmente ao passado por meio da chamada “memória genética”.
Integrado à Animus, o barman faz uma viagem virtual de volta à Idade Média e revive as memórias de um de seus ancestrais, o assassino Altaïr Ibn La’Ahad. O jogador terá o controle principalmente do personagem Altaïr, já Desmond será controlado apenas durante algumas cenas mais monótonas. Durante o desenrolar da trama, vêm à tona vários segredos da Ordem dos Assassinos e a rixa que este grupo mantinha com os famosos Cavaleiros Templários.
O Credo dos Assassinos
Assassin’s Creed é uma evolução de uma franquia já consagrada: Prince of Persia. A princípio, a Ubisoft tinha o projeto de expandir a série e criar o game Prince of Persia: Assassin. A ideia era que o jogador controlasse um assassino com a missão de proteger um jovem príncipe. Contudo, o trabalho de pesquisa dos desenvolvedores sobre o Credo dos Assassinos foi tão vasto que eles decidiram criar uma franquia inteiramente nova.

Divulgação: Prince of Persia
Para Eder Martins, fã da série e responsável pelo Assassin’s Creed Blog, o sucesso do game envolve uma sequência de fatores e a herança de Prince of Persia é apenas um deles. Outro trunfo do jogo, segundo Eder, é a inovação que Assassin’s Creed trouxe. “Na época em que o primeiro Assassin’s Creed foi lançado, não havia nenhum jogo sequer parecido. O contexto histórico, a movimentação realista dos personagens, a temática furtiva com foco em assassinatos e camuflagem e, principalmente, seu ótimo enredo de ficção científica pautado em acontecimentos históricos fizeram com que o jogo se tornasse um sucesso”, explica Eder.

Assassino e templário em combate
“A Ubisoft agiu rápido em criar uma franquia forte quando corrigiu os erros do primeiro título e lançou um excelente game, o Assassin’s Creed II. Esse título é considerado um dos maiores jogos de todos os tempos devido a toda a primazia em pesquisa, cenário, personagens, jogabilidade, história, diversão, etc. Foi a partir deste título que a Ubisoft consolidou o sucesso da franquia”, completa.
Os elementos visuais do game são excelentes. Assassin’s Creed não poupou na exuberância dos gráficos. A combinação dos elementos visuais com a simpatia de seus personagens fez com que os jogadores criassem uma identidade junto ao game. Eder aponta que dois itens (que tem um grande destaque nos jogos) ajudaram a cativar o público: o capuz e as hidden blades (lâminas escondidas) que os assassinos carregam ocultadas pelas mangas. “Os simples movimentos de puxar um capuz e de acionar uma hidden blade são marcantes, fortes, cheios de pose e significativos”, conta ele. “Pergunte para qualquer fã da saga como ele mesmo se sente ao utilizar uma simples blusa de capuz no dia a dia.”
Elogios à parte, um fator fez com que a qualidade da série decaísse após o segundo título: o desentendimento entre Patrice Désilets, o criador do jogo, e a Ubisoft. Para Eder, o fato de o criador ter sido separado da criatura não chegou a prejudicar o jogo como um todo, porém pode ter comprometido a trama. “Mudanças, em si, não caracterizam um motivo único para a queda de qualidade, mas depende da mudança. Se o criador da saga já tinha um caminho definido para uma história a ser contada e, durante o trajeto, há mudanças para tal fim, é comum que toda a franquia acabe por mostrar incongruências e até mesmo este desnivelamento de qualidade”, afirma o gamer.
Enriquecimento cultural
É comum que jogos estilo single player (em que o foco não é a competição entre diversos jogadores) tragam uma ampla dimensão narrativa. Por se basearem em sólido contexto histórico, jogos como Assassin’s Creed podem, de certa forma, ajudar no enriquecimento cultural do gamer. Quem corrobora a afirmação anterior é o professor Salah Hassan Khaled Júnior, doutor em Ciências Criminais pela PUCRS e mestre em História pela UFRGS. “Considerando que os livros da série Assassin’s Creed e os próprios games contam com pessoas especializadas na área, podemos dizer que a representação do passado é relativamente fiel e em grande medida superior à média das obras de ficção que referem contextos históricos específicos”, afirma o professor. “Logicamente, não substituem trabalhos acadêmicos, mas não seria exagero dizer que cumprem (papel educador).”
Nesse sentido, o gamer Eder Martins segue a mesma linha que o professor. “Tudo depende de como o público absorve as informações”, diz o blogueiro. “Assassin’s Creed oferece uma grande quantidade de informações baseadas em fatos históricos, mas, trata-se de um game. Cabe ao jogador coletar mais informações, contexto, relevância, fatos e tudo mais para que o jogo se torne um material ‘mais útil’ para ele.”
Embora o game não esconda a violência praticada pelos Assassinos, este grupo é o dos mocinhos da história, enquanto os Templários são os vilões. Perguntado pela nossa reportagem se o fato de idealizar um grupo e demonizar um outro pode causar confusão ou ‘deseducar’ os jogadores, o professor Salah responde que “não mais do que qualquer outra obra de ficção estruturada em torno do confronto com eventuais inimigos. Ninguém deve tomar o enredo da série como ‘História’ e não me parece que essa hipótese possa ser levantada seriamente”, além disso, “o compromisso com a ‘verdade’ pertence a outras instâncias, como a imprensa, a historiografia e o sistema penal, por exemplo.”

Assassin’s Creed III remonta a Guerra da Independência dos Estados Unidos
Divergências entre especialistas
Os momentos de combate entre as ordens dos Assassinos e dos Templários estão presentes em todos os jogos da série e, obviamente, envolvem muito sangue, mutilações, degolações, pancadarias, enfim, violência a torto e a direito. E eis que surge a questão: afinal, jogos violentos estimulam a agressividade de seus jogadores? As respostas para a pergunta anterior são conflitantes e parece que estamos longe de um consenso.
Em 2015 a APA (American Psichological Association, ou, em português, Associação Americana de Psicologia) divulgou um estudo que afirma haver um elo entre os jogos violentos e a agressividade dos jogadores. A Associação analisou cerca de 300 estudos relacionados com o tema que foram publicados entre 2005 e 2013. Após a realização das pesquisas, concluiu-se que os jogos de ‘mortes’ e ‘tiros’ são enormes influenciadores de crianças e adolescentes.
“Nenhum fator de risco sozinho leva necessariamente uma pessoa a agir de maneira agressiva ou violenta”, diz o relatório do estudo. “Na verdade, é o acúmulo de fatores de risco que tende a levar a comportamentos violentos e agressivos. Esta pesquisa demonstra que videogames violentos são um dos fatores de risco.”

Série GTA, da Rockstar Games, é frequentemente comparada a crimes reais
No entanto, o professor Salah H. Khaled Jr. atesta que não há evidência de que jogos eletrônicos provoquem violência. “A suposta conexão entre games e violência não é mais que um discurso produzido pela imprensa, recepcionado por políticos e grupos de pressão e, de certo modo, ‘certificado como verdadeiro’ por alguns pesquisadores, cujo resultado conduz à criminalização cultural dos games, criadores e jogadores” afirma Salah. “Trata-se de um complexo processo de difusão de pânico moral por reacionários culturais.”
O professor é assumidamente fã de videogames e realizou uma extensa pesquisa sobre a criminalização dos jogos eletrônicos. Escreveu, inclusive, um livro Videogame e Violência: Causa e Efeito ou Pânico Moral? sobre o tema. A obra, que será lançada no primeiro semestre de 2017, surgiu da indignação do autor frente ao que ele chamou de “discurso simplificador de criminalização cultural e difusão do pânico moral” transmitido por um programa policialesco ao relacionar uma tragédia especificamente com o jogo analisado nesta matéria: Assassin’s Creed.
Caso Pesseghini
Na noite de 5 de agosto de 2013, cinco pessoas da mesma família foram encontradas mortas dentro da casa onde moravam. As vítimas da chacina eram: o garoto Marcelo Eduardo Bovo Pesseghini, de 13 anos; seus pais: Luís Marcelo Pesseghini e Andréia Bovo Pesseghini (ambos policiais militares); Benedita de Oliveira Bovo e Bernadete Oliveira da Silva respectivamente avó e tia-avó do menino. De acordo com as investigações oficiais do DHPP (Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa), o autor do crime foi o próprio garoto, que teria matado seus parentes e, posteriormente, se suicidado. O caso Pesseghini possui várias controvérsias e muitas pessoas, incluindo parentes da família, discordam da conclusão oficial apresentada pela Polícia Civil. O caso ganhou repercussão mundial e foi exaustivamente abordado na imprensa brasileira.

Programa Cidade Alerta faz associação entre o jogo e o crime
Mesmo antes da conclusão das investigações, um detalhe chamou a atenção dos olhares da mídia nacional: o garoto Marcelo Pesseghini chegou a usar uma imagem de Ezio Auditore em sua foto de perfil no Facebook. Ezio Auditore é protagonista em alguns títulos de Assassin’s Creed e um dos assassinos mais queridos pelos fãs do game. Logo o jogo eletrônico foi relacionado ao caso e apontado por alguns especialistas como o responsável por incentivar o garoto a cometer o crime. Essa acusação gerou enorme polêmica. Primeiro porque ainda não estava concluído que o autor da matança era o menino e, segundo, porque gerou a pergunta: mesmo que ele fosse o autor, até que ponto um jogo eletrônico poderia incentivar um adolescente a praticar um crime tão grave?
O blogueiro Eder Martins acredita que Assassin’s Creed foi o “bode expiatório” do caso. “Na minha opinião, este é mais um daqueles casos em que a desinformação impera”, diz ele. “Eu li algumas coisas quando o caso ainda estava recente e fiquei abismado com a petulância e o desrespeito que a mídia teve com seu público. ”
Com a repercussão do caso, a Ubisoft defendeu seu game através de uma nota nas redes sociais. A empresa lamentou a tragédia e disse que “em nenhum estudo até agora realizado há consenso sobre a associação entre a violência e obras de ficção, incluindo livros, séries de televisão, filmes e jogos”.
Buscando mais detalhes
Com relação ao caso Pesseghini, o professor Salah conta que a mídia desencadeou um processo de criminalização cultural. “O Heavy Metal, o Funk, as histórias em quadrinhos e inúmeras outras expressões culturais já foram criminalizadas por reacionários culturais que convocam verdadeiras cruzadas morais e criam bodes expiatórios para violência real”, explica ele.

Polêmico cantor Marilyn Manson
Marilyn Manson que o diga. O cantor já foi acusado diversas vezes de ter incentivado, através de suas músicas, suicídios, assassinatos e até massacres, como o de Columbine, em que dois jovens (apontados como fãs da banda de Manson) feriram e mataram várias pessoas em uma escola nos Estados Unidos. No caso de Columbine, os games também não passaram batido. Além do cantor de Metal, também foram destacados como responsáveis pela atitude dos atiradores os jogos Doom, Wolfenstein e Duke Nukem.

Divulgação
Assassinos
Para os historiadores, a Ordem dos Assassinos (a verdadeira) foi fundada por volta do ano de 1090 e extinta em 1260. Porém, há quem acredite que os membros remanescentes se exilaram na Europa e participaram de eventos marcantes da História. É a partir dessa teoria e desses estudos que se desenrola o enredo da série Assassin’s Creed. No primeiro título, o jogador visita o Oriente Médio na Era Medieval. Na sequência, é transportado para a Itália renascentista. Em títulos seguintes, os jogadores ainda podem passar pelos Estados Unidos durante a luta pela independência; pela França no curso de sua famosa revolução; pela Londres vitoriana e muitos outros ambientes exuberantes em seus momentos mais chamativos.
Existe uma frase atribuída a George Orwell que diz que a história é escrita pelos vencedores. No caso de Assassin’s Creed a narrativa acompanha o ponto de vista do grupo (supostamente) derrotado (ou marginalizado, talvez?), mostrando uma nova perspectiva e instigando a dúvida: neste mundo em que vivemos, existem heróis e vilões? Assassin’s Creed estimula a crítica quanto à visão maniqueísta de mundo. No fim das contas já está bastante ultrapassado esse conceito de que indivíduos, tribos e grupos ou são completamente do bem ou completamente do mal.
***
Quem se interessar pelas entrevistas completas com as fontes desta matéria (Eder Martins e o professor Salah H. Khaled Jr.) pode acompanhar através do seguinte link: https://medium.com/verbat%C3%B4mico/assassins-creed-entrevistas-na-%C3%ADntegra-a5eebe43ed95#.1wrem1vsd