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Crônicas de um Brasil às Avessas - 1: Auto de Resistência 

Crônica escrita em abril de 2018

         Crônicas de um Brasil às Avessas - 1

 

         Crônicas de um Brasil às avessas é uma série de crônicas ambientadas em um Brasil paralelo, onde quem toma tapa de policial é o rico, onde as crianças revistadas pelo Exército estudam em escola particular, onde iPhone é confundido com revólver e onde as ONGs da classe média progressista estão instaladas em bairros nobres. Em meio a todo esse caos, às avessas do Brasil real, um candidato a presidência propõe abertamente fuzilar latifundiários, sonegadores e exploradores de mão de obra escrava.

 

         Auto de Resistência


 

         Sob um pálido céu cinza, um corpo jazia ao lado de um carro importado. Mesmo blindada, a BMW modelo X5 não suportara as rajadas dos fuzis de grosso calibre e estava crivada de balas. Quase tão cheio de furos quanto o veículo, estava o cadáver. Ricardo havia tentado fugir de uma blitz da polícia instalada numa rua próxima ao seu condomínio. Até sua tentativa de fuga, não estava fora da lei. Não era procurado; não portava armas nem nenhum artigo ilegal; não estava bêbado nem drogado; seus documentos estavam na carteira; o carro estava completamente regularizado. Mesmo assim, resolvera fugir. A visão daquelas armas e uma experiência anterior muito desagradável envolvendo uma abordagem policial deixou o jovem empresário assustado. Pensou que talvez seu carro potente e blindado conseguisse furar o bloqueio e deixar os policiais para trás. Enganou-se. Quando percebeu que os tiros começavam a penetrar a blindagem, Ricardo brecou e saiu do carro com as mãos para cima. Mesmo assim, foi fuzilado sem dó.

         Pouco antes do tiroteio, as câmeras de segurança das mansões daquela rua espocaram “misteriosamente”. Também foi “misteriosamente” que uma pistola apareceu na mão esquerda do cadáver de Ricardo. Até então, não passara na cabeça de ninguém que o empresário fosse destro.

         Não demorou muito para que uma equipe de reportagem chegasse ao local. A rua era arborizada e abrigava mansões vistosas. Era uma manhã fria e cinzenta. Após uma rápida conversa com os responsáveis pela operação, o repórter Vagner Garrafa se posicionou ao lado do carro. Com seus longos anos de experiência, maquinava seus lides em questão de minutos e não titubeava na hora de dar a notícia. A câmera focava o repórter, mas não deixava de captar uma parte do cadáver, que seria posteriormente borrada pela equipe de edição.

         – Por volta das cinco horas da manhã, o bairro do Morumbi foi palco de um tiroteio entre policiais e um bandido – começou o repórter. – O empresário paulistano Ricardo Matarazo tentou fugir de uma abordagem policial. Porém, ao perceber que não teria sucesso na fuga, Ricardo desceu de seu carro atirando contra os agentes.

         Os cidadãos do Brasil paralelo não eram muito afeitos ao raciocínio. Portanto, mais tarde, quando a reportagem de Vagner Garrafa fosse ao ar, os telespectadores não questionariam se alguém com um mínimo de apego à própria vida e um mínimo de saúde mental desceria de um veículo blindado, atirando com uma pistola contra um grupo de policiais fortemente armados. Da mesma forma, ninguém questionou qual tipo de crime Ricardo praticava ou se ele era mesmo um bandido. Se foi morto pela polícia e seu cadáver ainda segurava uma pistola, não havia a menor possibilidade de que ele fosse um cidadão de bem.

         Depois de terminar sua narração do episódio, Vagner foi até um policial para entrevistá-lo. O sargento reforçou as palavras já ditas pelo repórter para a câmera. O mesmo repórter em questão havia viralizado nas redes sociais algumas semanas antes por ter tentado entrevistar um homem caído no chão. O homem era um médico acusado de tráfico de cocaína. Vagner pensara que o homem de jaleco branco estava apenas detido, como seus comparsas também deitados ao lado, mas havia um detalhe importante: o médico estava morto, com um tiro no coração. Ao perceber a gafe, o repórter fez piada de sua própria ignorância. E brasileiros de todo o Brasil paralelo riram da situação.

         – Sargento, a gente percebeu que as câmeras de segurança das casas aqui da rua estão quebradas, o senhor sabe o porquê? – perguntou Vagner, tentando transmitir imparcialidade.

         – Olha, quando chegamos já estavam assim – respondeu o policial. – Não sabemos se foram traficantes que atuam na região que quebraram ou se foram os próprios moradores que muitas vezes quebram as câmeras para não ceder imagens às investigações e atrapalhar o trabalho da polícia. Infelizmente precisamos dizer isso, a maioria dos moradores de bairro nobre é gente honesta, mas infelizmente os que não são acabam manchando a imagem dos demais.

         – Até pegando um gancho na sua declaração, muita gente reclama que a abordagem policial é mais rígida em bairros nobres do que na periferia. A operação realizada hoje aqui foi feita nos mesmos padrões de outras realizadas em bairros mais humildes?

         O policial trocou o pé de apoio, visivelmente incomodado com a pergunta.

         – Não, veja bem, não é possível que uma operação seja idêntica em bairros diferentes. E isso acontece por vários motivos; tem a questão da própria geografia do local, tem as condições de segurança do ambiente e até mesmo a receptividade da comunidade. Infelizmente, a população dos bairros nobres costuma receber a polícia com hostilidades o que dificulta o nosso trabalho e nos força a atuar de forma diferente, mas sempre visando a segurança de todos os indivíduos.

 

***
 

         O programa com a reportagem sobre o caso de Ricardo Matarazo foi ao ar em horário de almoço. Em um restaurante barato, entre uma garfada e outra de arroz e feijão, uma dupla de trabalhadores se entretinha, comentando as notícias que passavam na televisão.

         – E tem gente que ainda defende essa raça.

         – Antigamente era bom. Antigamente a polícia invadia mansão de bandido e não deixava um vivo. Era muito mais seguro naquele tempo.

         – Tem gente que diz que não pode sair matando porque, às vezes, é um inocente. Mas, pra mim, se é rico é porque deve. Diz que dá emprego, que gera renda e não sei o quê, mas pode ter certeza que no mínimo sonega imposto. E hoje em dia a gente nem pode mais xingar o patrão que corre o risco de eles denunciarem a gente por assédio.

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